Imagem gerada por inteligência artificial
Durante o período eleitoral, novos levantamentos de intenção de voto podem ser divulgados praticamente todas as semanas.
Uma pesquisa aponta determinado candidato na liderança. Dias depois, outro instituto apresenta uma diferença menor ou até uma inversão nas primeiras posições. Nas redes sociais, apoiadores costumam utilizar os números para afirmar que a eleição já está decidida.
As pesquisas, no entanto, não funcionam como uma previsão exata do resultado das urnas. Elas retratam as respostas de um grupo de eleitores em determinado período, seguindo uma metodologia estatística.
Para interpretar corretamente uma pesquisa eleitoral no Rio de Janeiro, é necessário observar mais do que os percentuais apresentados na manchete.
Pesquisa mostra o cenário do momento
Uma pesquisa de intenção de voto indica como os entrevistados responderam durante os dias em que o levantamento foi realizado.
Entre a coleta das entrevistas e o dia da eleição, o cenário pode mudar por diferentes motivos:
- início da propaganda eleitoral;
- realização de debates;
- definição das candidaturas;
- formação ou rompimento de alianças;
- divulgação de novas propostas;
- acontecimentos políticos;
- decisões judiciais;
- aumento do conhecimento sobre os candidatos.
Por isso, uma pesquisa divulgada em julho não deve ser tratada como uma antecipação definitiva do resultado de outubro.
Ela representa uma fotografia daquele momento. Quanto mais distante estiver o dia da votação, maior será o espaço para mudanças.
A pesquisa é sobre o estado ou sobre a cidade do Rio?

Esse é um dos primeiros pontos que o leitor deve verificar.
O termo “Rio de Janeiro” pode se referir tanto ao estado quanto à capital, mas os dois universos são diferentes.
Uma pesquisa realizada apenas com eleitores da cidade do Rio não representa automaticamente a opinião de todo o estado. Ela não inclui eleitores da Baixada Fluminense, de Niterói, São Gonçalo, Região dos Lagos, Norte Fluminense, Sul Fluminense e demais municípios.
Para analisar as eleições de 2026 para governador e senador, o levantamento precisa abranger o eleitorado estadual.
Já uma pesquisa restrita à capital pode ser utilizada para medir a avaliação da Prefeitura ou opiniões dos moradores do município, mas não deve ser apresentada como retrato de todo o eleitorado fluminense.
No registro oficial, a empresa deve informar a unidade da Federação, os cargos pesquisados e a área física abrangida pelo trabalho.
O que é margem de erro?
A pesquisa não entrevista todos os eleitores. Ela seleciona uma amostra que procura reproduzir características relevantes do conjunto da população pesquisada.
A margem de erro indica a variação estatística estimada para os resultados.
Considere um levantamento hipotético com margem de erro de três pontos percentuais:
- Candidato A: 34%;
- Candidato B: 30%.
Aplicando a margem de erro de forma simplificada, o resultado do primeiro poderia variar de 31% a 37%, enquanto o segundo poderia ficar entre 27% e 33%.
Isso não significa que todos os resultados obrigatoriamente variarão três pontos. A margem mostra uma faixa de incerteza associada ao processo de amostragem.
Também é importante observar que a margem pode ser diferente para determinados recortes, como eleitores de uma região específica, faixa etária ou nível de renda. Esses grupos geralmente possuem menos entrevistados do que a amostra total.
O que significa empate técnico?
“Empate técnico” é uma expressão frequentemente utilizada pelo jornalismo quando a diferença entre candidatos está dentro da margem de erro apresentada pela pesquisa.
Se um candidato possui 32% e outro registra 30%, em uma pesquisa com margem de três pontos, não é possível afirmar com segurança estatística que o primeiro está efetivamente à frente.
Isso não significa que os dois tenham exatamente o mesmo percentual. Existe uma diferença numérica, mas ela não é suficiente para estabelecer uma liderança segura considerando a incerteza da amostra.
Por isso, uma notícia deve diferenciar:
Liderança numérica: um candidato aparece com percentual maior.
Liderança fora da margem: a vantagem é suficientemente ampla dentro dos critérios apresentados pelo levantamento.
Empate técnico: os intervalos possíveis impedem uma conclusão segura sobre quem está à frente.
A expressão, porém, é uma simplificação jornalística. Para uma leitura mais cuidadosa, também devem ser considerados o plano amostral, o nível de confiança, a metodologia e a evolução observada em outros levantamentos.
O que é nível de confiança?
O nível de confiança está relacionado à probabilidade de o procedimento utilizado produzir resultados dentro da margem de erro informada quando repetido em condições semelhantes.
Muitas pesquisas eleitorais trabalham com nível de confiança de 95%.
Em termos simplificados, isso significa que, caso o mesmo método fosse repetido muitas vezes, a grande maioria dos levantamentos apresentaria estimativas dentro da faixa informada.
O nível de confiança não quer dizer que existe 95% de chance de determinado candidato vencer. Ele está relacionado ao método estatístico da pesquisa, e não à previsão da eleição.
A margem de erro e o nível de confiança devem obrigatoriamente constar entre as informações registradas pela empresa responsável pelo levantamento.
Pesquisa estimulada e espontânea são diferentes

Em uma pesquisa espontânea, o entrevistador pergunta em quem a pessoa pretende votar sem apresentar uma lista de candidatos.
Esse formato ajuda a medir quais nomes já estão presentes na memória do eleitor. Nos meses anteriores à eleição, é comum que o percentual de pessoas que não sabem responder seja elevado.
Na pesquisa estimulada, o entrevistador apresenta uma lista com possíveis candidatos e pede que o eleitor escolha uma das opções.
Por isso, os percentuais da estimulada costumam ser maiores. O entrevistado pode reconhecer um nome ao visualizar a lista, mesmo que não tivesse se lembrado dele espontaneamente.
Os dois resultados são relevantes, mas respondem a perguntas diferentes:
- espontânea: quem o eleitor lembra sem ajuda;
- estimulada: quem ele escolheria entre os nomes apresentados.
Ao publicar uma matéria, o Politicast deve informar claramente qual modalidade está sendo apresentada.
A lista de candidatos interfere no resultado?
Sim.
Um levantamento pode testar diferentes cenários, retirando ou acrescentando possíveis candidatos.
A entrada de um nome conhecido pode alterar a distribuição dos votos. Da mesma forma, a retirada de uma pré-candidatura pode beneficiar mais um concorrente do que os demais.
Por isso, duas pesquisas somente devem ser comparadas diretamente quando apresentam cenários semelhantes.
Não é correto afirmar que um candidato cresceu cinco pontos quando o levantamento anterior utilizava uma lista completamente diferente.
Antes de comparar, observe:
- os mesmos candidatos foram apresentados?
- a ordem dos nomes foi alternada?
- a pergunta foi formulada da mesma maneira?
- o universo pesquisado era igual?
- o método de coleta permaneceu o mesmo?
O questionário completo utilizado no levantamento precisa ser registrado no sistema da Justiça Eleitoral.
O que representa a rejeição?
A pesquisa de rejeição procura identificar em quais candidatos o entrevistado afirma que não votaria.
Um político pode aparecer bem colocado na intenção de voto e, ao mesmo tempo, possuir rejeição elevada.
Esse dado é especialmente relevante para analisar um possível segundo turno. Um candidato pode ter uma base fiel de apoiadores, mas enfrentar dificuldade para conquistar eleitores que inicialmente preferiam outros nomes.
Também é necessário verificar como a pergunta foi feita.
Em alguns levantamentos, o entrevistado pode rejeitar vários candidatos. Em outros, precisa apontar apenas um. Como os formatos são diferentes, os percentuais não devem ser comparados sem considerar o questionário.
A rejeição também não significa automaticamente derrota. Ela deve ser analisada junto com intenção de voto, conhecimento do candidato, potencial de crescimento e transferência de votos.
O número de entrevistados é suficiente?
Uma pesquisa com 2 mil entrevistas não é automaticamente boa, assim como uma com 1.200 não é necessariamente ruim.
O tamanho da amostra importa, mas não é o único elemento que determina a qualidade de um levantamento.
Também devem ser observados:
- como os entrevistados foram selecionados;
- quais regiões foram incluídas;
- distribuição por gênero e idade;
- nível de escolaridade;
- condição econômica;
- método de entrevista;
- critérios de ponderação;
- controle do trabalho de campo.
No Rio de Janeiro, a distribuição territorial possui grande importância. A capital, a Baixada, o Leste Fluminense, o interior e as demais regiões podem apresentar comportamentos políticos diferentes.
Uma amostra concentrada de maneira inadequada em uma área poderia distorcer a representação do eleitorado estadual.
As regras eleitorais exigem o registro do plano amostral, das ponderações e da distribuição territorial utilizada no trabalho.
Entrevista presencial, por telefone e pela internet dão o mesmo resultado?
Não necessariamente.
Pesquisas podem ser realizadas presencialmente, por telefone, por formulários digitais ou por outros métodos declarados pela empresa.
Cada modalidade possui vantagens, limitações e formas diferentes de selecionar os participantes.
Entrevistas presenciais podem alcançar pessoas que utilizam menos a internet, mas exigem uma operação de campo mais ampla. Pesquisas telefônicas precisam lidar com a disponibilidade dos números e com a disposição do eleitor para responder. Levantamentos digitais precisam garantir que a amostra não fique concentrada apenas em determinados perfis de usuários.
Isso não significa que um método seja sempre superior aos demais. O mais importante é verificar se a empresa explica a metodologia, apresenta os critérios de seleção e utiliza procedimentos adequados para representar o público analisado.
Por que pesquisas diferentes apresentam resultados diferentes?
Dois institutos podem realizar levantamentos em períodos próximos e encontrar números distintos sem que um deles esteja necessariamente errado.
As diferenças podem resultar de:
- datas de coleta diferentes;
- métodos de entrevista distintos;
- composição da amostra;
- critérios de ponderação;
- ordem e redação das perguntas;
- cenários apresentados;
- acontecimentos ocorridos durante o trabalho de campo;
- variação normal da amostragem.
Por isso, é mais seguro analisar uma sequência de levantamentos do que interpretar uma única pesquisa isoladamente.
Quando diferentes institutos apontam a mesma tendência durante várias semanas, a leitura ganha maior consistência. Ainda assim, a decisão final pertence ao eleitor e somente será conhecida na apuração dos votos.
Toda pesquisa precisa ser registrada?
A partir de 1º de janeiro do ano eleitoral, as empresas que pretendem divulgar pesquisas relacionadas às eleições precisam registrar cada levantamento no sistema PesqEle até cinco dias antes da publicação.
Entre as informações exigidas estão:
- contratante;
- responsável pelo pagamento;
- valor e origem dos recursos;
- período das entrevistas;
- metodologia;
- plano amostral;
- margem de erro;
- nível de confiança;
- questionário;
- profissional de estatística responsável;
- estado e cargos analisados.
O registro pode ser consultado por qualquer pessoa no portal da Justiça Eleitoral.
Registro no TSE significa que a pesquisa foi aprovada?
Não.
Esse é um cuidado importante para o texto jornalístico.
O registro torna públicas as informações apresentadas pela empresa responsável, mas a Justiça Eleitoral não realiza uma aprovação prévia dos resultados nem confirma antecipadamente a qualidade do levantamento.
O próprio TSE esclarece que não controla previamente os resultados e atua quando é provocado por meio dos instrumentos legais disponíveis.
Portanto, o Politicast deve evitar frases como:
“Pesquisa aprovada pelo TSE mostra…”
A forma correta é:
“Pesquisa registrada no TSE mostra…”
Pesquisa e enquete não são a mesma coisa
Uma enquete aberta nas redes sociais não possui valor científico para representar o eleitorado.
Quando um perfil pergunta aos seguidores “em quem você votaria?”, as respostas vêm de pessoas que decidiram participar espontaneamente. Além disso, o público daquela página pode ser mais favorável a um determinado grupo político.
Uma pesquisa eleitoral utiliza uma amostra planejada e critérios metodológicos. A enquete mede apenas a participação daquele grupo naquele ambiente.
Durante o período de campanha, a legislação eleitoral proíbe a realização de enquetes relacionadas ao processo eleitoral. Já as pesquisas destinadas à divulgação pública devem cumprir as exigências de registro.
Como o leitor pode verificar uma pesquisa?
Antes de confiar apenas na manchete, procure responder às seguintes perguntas:
- Qual instituto realizou o levantamento?
- Quem contratou e pagou?
- Em quais dias as entrevistas foram feitas?
- A pesquisa abrange o estado ou somente a capital?
- Quantas pessoas foram entrevistadas?
- Qual foi o método de coleta?
- Qual é a margem de erro?
- Qual é o nível de confiança?
- Quais candidatos estavam no cenário?
- O levantamento possui número de registro no PesqEle?
Também vale consultar a pesquisa completa. Gráficos publicados em redes sociais podem omitir informações relevantes, como o percentual de indecisos, votos brancos e nulos ou a formulação exata da pergunta.
O título também precisa respeitar os dados.
Pesquisa informa, mas não substitui o voto
Pesquisas eleitorais ajudam a compreender tendências, níveis de conhecimento, rejeição e movimentações da disputa.
No entanto, seus resultados precisam ser apresentados com contexto e responsabilidade.
Uma diferença numérica não significa necessariamente uma liderança consolidada. Um empate técnico não quer dizer que os candidatos tenham exatamente o mesmo apoio. E um levantamento realizado meses antes da votação não determina o resultado das urnas.
Ao observar metodologia, amostra, território, margem de erro e período de coleta, o eleitor consegue interpretar os números com mais segurança e evita conclusões baseadas apenas em manchetes ou publicações partidárias.
Fontes principais: Tribunal Superior Eleitoral e Resolução TSE nº 23.600/2019, atualizada para as eleições de 2026.