Distração frequente, impulsividade, dificuldade para manter a atenção e problemas para organizar compromissos podem estar associados ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, conhecido como TDAH.
Embora os sinais geralmente apareçam durante a infância, muitas pessoas chegam à vida adulta sem compreender a origem das dificuldades enfrentadas nos estudos, no trabalho, nos relacionamentos e na organização da rotina.
Neste 13 de julho, a data de conscientização sobre o TDAH reforça a necessidade de ampliar o acesso à informação, combater julgamentos e garantir atendimento adequado às pessoas que convivem com o transtorno.
A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro cita uma estimativa de aproximadamente 2 milhões de brasileiros com TDAH e destaca leis estaduais voltadas ao diagnóstico precoce, ao acompanhamento multiprofissional e à inclusão escolar.
Diagnóstico exige avaliação profissional
O diagnóstico do TDAH é clínico e deve ser realizado por um profissional habilitado.
A avaliação considera o histórico da pessoa, a presença dos sintomas desde a infância, os impactos provocados na rotina e a possibilidade de outras condições apresentarem manifestações semelhantes.
A avaliação neuropsicológica também pode auxiliar na análise de habilidades como atenção, memória e funções executivas. Entretanto, ela faz parte de um processo mais amplo e não deve ser utilizada isoladamente para confirmar o transtorno.
O tratamento é definido de acordo com as necessidades de cada pessoa e pode incluir acompanhamento médico, psicoterapia, orientação sobre o transtorno, estratégias de organização e, quando indicado, medicação prescrita por um profissional.
Diagnóstico também pode acontecer na vida adulta
Receber o diagnóstico somente na fase adulta é uma realidade para muitas pessoas.
O fotógrafo Thiago Lontra, por exemplo, passou mais de três décadas enfrentando dificuldades para estudar, manter o foco e lidar com situações sociais sem saber que esses desafios poderiam estar relacionados ao TDAH.
Após a percepção da esposa e a procura por profissionais especializados, ele recebeu o diagnóstico aos 34 anos. A resposta o ajudou a reinterpretar acontecimentos da infância e da adolescência e a compreender melhor sua própria trajetória.
Com acompanhamento médico e tratamento, Thiago relatou avanços na organização da rotina e no equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.
O jornalista Tiago Atzevedo também foi diagnosticado depois da infância. Aos 21 anos, foi orientado pela psicóloga a investigar comportamentos que pareciam ultrapassar episódios comuns de desatenção.
Depois do diagnóstico, ele passou a adotar mecanismos práticos para diminuir esquecimentos e organizar melhor as tarefas do cotidiano.
Diagnóstico tardio pode explicar dificuldades antigas
Pessoas diagnosticadas na vida adulta podem chegar ao atendimento carregando frustrações, baixa autoestima e sentimentos de incapacidade.
Durante anos, dificuldades relacionadas à atenção, à organização ou ao controle da impulsividade podem ser interpretadas como falta de esforço, desinteresse ou irresponsabilidade.
A neuropsicóloga Wanessa Berba ressalta que compreender o transtorno pode trazer alívio e abrir caminho para estratégias mais adequadas. Ao mesmo tempo, a pessoa pode enfrentar um período de reflexão sobre oportunidades e experiências anteriores.
Para familiares e pessoas próximas, a orientação é buscar informação e evitar julgamentos.
“O TDAH não é falta de interesse, preguiça ou desorganização por escolha.”
O apoio da família, o acolhimento das dificuldades e o incentivo à continuidade do tratamento podem contribuir para a adaptação e a qualidade de vida.
Programa estadual prevê diagnóstico e acompanhamento
No Rio de Janeiro, uma das principais políticas voltadas ao tema é o Programa Estadual de Diagnóstico e Tratamento do TDAH.
Criado em 2016, o programa foi ampliado pela Lei Estadual nº 9.750/2022, que passou a contemplar também pessoas com Transtorno Desafiador Opositivo, conhecido pela sigla TDO.
A legislação prevê ações relacionadas a:
- diagnóstico precoce;
- acompanhamento por diferentes profissionais;
- atendimento escolar especializado;
- orientação às famílias;
- integração com iniciativas da área educacional.
O programa também pode funcionar de forma integrada ao Saúde na Escola, fortalecendo a identificação de possíveis casos ainda durante a infância.
Estudantes podem ocupar lugares estratégicos em sala
Outra medida em vigor no estado determina que escolas públicas e privadas disponibilizem assentos em posições estratégicas da sala para estudantes com TDAH.
A organização busca reduzir estímulos capazes de prejudicar a concentração e oferecer condições mais favoráveis para o acompanhamento das atividades escolares.
A localização deve considerar as necessidades do estudante e a dinâmica da sala, evitando que a medida seja tratada como punição, isolamento ou exposição diante dos demais alunos.
A política não substitui o acompanhamento pedagógico e profissional. Ela funciona como uma adaptação destinada a favorecer o processo de aprendizagem.
Diretrizes de acessibilidade passam a incluir o TDAH
A Alerj também aprovou uma ampliação das diretrizes estaduais de acessibilidade para incluir pessoas com TDAH entre os públicos contemplados.
A medida reconhece que barreiras de comunicação, organização e acesso a serviços podem afetar a autonomia e a participação social de quem convive com o transtorno.
A inclusão nas diretrizes abre espaço para o desenvolvimento de políticas específicas, adaptações e procedimentos que considerem essas necessidades em diferentes ambientes.
Informação ajuda a combater estigmas
A conscientização sobre o TDAH não deve servir para estimular diagnósticos feitos por conta própria.
Dificuldades de atenção e organização podem ter diferentes causas. Somente uma avaliação profissional pode analisar o histórico, os sintomas e os impactos na vida da pessoa.
Ao mesmo tempo, ampliar o acesso à informação ajuda a combater a ideia de que o transtorno representa preguiça, falta de disciplina ou ausência de interesse.
O diagnóstico adequado, o tratamento individualizado e as políticas de inclusão podem melhorar o acesso à educação, à saúde e a oportunidades profissionais.
No Rio de Janeiro, as leis aprovadas representam avanços, mas sua efetividade também depende da aplicação das medidas, da capacitação dos profissionais e da divulgação dos direitos para famílias, estudantes e adultos com TDAH.
Fonte principal: Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.