Comitê da Meta aponta falta de transparência sobre atuação eleitoral no Brasil

Conselho de Supervisão critica falhas na moderação de conteúdo político e questiona tratamento dado às contas da campanha de Lula

O Comitê de Supervisão da Meta apontou falhas recorrentes na atuação da empresa durante as eleições brasileiras de 2026. Além disso, o conselho cobrou maior transparência sobre os mecanismos de moderação.

A manifestação foi publicada nesta terça-feira (20), poucos dias antes do segundo turno da eleição presidencial. O órgão citou especificamente problemas que atingiram contas de anúncios ligadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Segundo o Comitê, a Meta aplicou de maneira excessivamente rigorosa suas políticas antifraude às contas utilizadas pela campanha de Lula. O caso, na avaliação dos especialistas, deveria ter sido encaminhado para uma equipe interna especializada.

O conselho, porém, não afirmou que a Meta tenha interferido deliberadamente na eleição brasileira. A empresa também nega favorecimento político e atribui os problemas identificados a falhas técnicas e automatizadas.

Conselho cobra métricas públicas da Meta

Um dos principais pontos levantados pelo Comitê de Supervisão envolve a falta de indicadores públicos capazes de medir a eficiência da moderação eleitoral.

A Meta divulga números gerais sobre suas atividades, como quantidade de anúncios armazenados e contas removidas. Entretanto, o conselho considera insuficientes essas informações para avaliar a eficácia dos mecanismos de proteção eleitoral.

Além disso, o órgão quer que a empresa consiga identificar publicamente as principais deficiências encontradas em seus sistemas de fiscalização.

O Comitê já havia feito essa recomendação após problemas registrados durante as eleições brasileiras de 2022. Segundo o conselho, a Meta ainda não implementou integralmente a estrutura de avaliação solicitada.

Caso de Lula chamou atenção do conselho

A manifestação destacou a desativação temporária da conta de anúncios utilizada pela campanha de Lula. A Meta reconheceu que a medida ocorreu de forma indevida durante uma revisão automatizada.

O bloqueio aconteceu em 23 de setembro e permaneceu por pouco mais de uma hora. A empresa classificou o episódio como um erro técnico, sem relação com qualquer preferência política.

Posteriormente, a campanha de Lula apresentou novas reclamações sobre restrições e problemas envolvendo a distribuição de conteúdos eleitorais.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também passou a exigir explicações da Meta sobre o tratamento dado às duas candidaturas presidenciais.

TSE determinou tratamento igual entre Lula e Flávio

A discussão ganhou força após o ministro Marco Aurélio Bellizze determinar medidas para garantir tratamento isonômico entre as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro (PL).

A decisão proibiu restrições injustificadas na distribuição de conteúdos políticos relacionados aos dois candidatos. A determinação também alcançou mecanismos de recomendação e métricas de visibilidade.

Além disso, a Meta deverá aplicar critérios iguais na utilização de sua ferramenta de inteligência artificial para solicitações relacionadas às duas candidaturas.

O ministro estabeleceu ainda mecanismos de revisão humana para determinadas restrições aplicadas automaticamente às contas de anúncios das campanhas.

Comitê aponta dois tipos de falhas eleitorais

O Oversight Board explica que problemas de moderação durante eleições podem ocorrer em duas direções.

Por um lado, a aplicação excessivamente rigorosa das regras pode restringir manifestações políticas legítimas. Por outro, uma fiscalização insuficiente pode permitir conteúdos que comprometam a integridade eleitoral.

No caso brasileiro, o conselho classificou os problemas envolvendo as contas de Lula como exemplo de aplicação excessiva das regras.

O órgão também defendeu que sistemas automatizados considerem idioma, contexto político e particularidades locais antes de restringir conteúdos.

Segundo o conselho, decisões automatizadas equivocadas podem reduzir a participação política justamente durante períodos eleitorais.

Meta nega interferência nas eleições

A Meta afirmou ao TSE que trata os conteúdos das duas candidaturas de maneira igual e não discriminatória.

A empresa também informou que os problemas registrados decorreram de incidentes técnicos. Segundo a companhia, esses episódios não demonstram qualquer atuação destinada a favorecer um candidato.

Em resposta ao tribunal, a Meta afirmou ainda que seus mecanismos garantem tratamento isonômico entre Lula e Flávio Bolsonaro.

O Comitê de Supervisão, entretanto, considera que a empresa precisa apresentar informações mais claras para permitir uma avaliação independente de seus sistemas eleitorais.

Estudo também encontrou falhas, mas não comprovou intenção

Uma pesquisa da Universidade Federal do Paraná analisou oito incidentes envolvendo plataformas digitais durante a eleição presidencial.

Segundo o levantamento, seis episódios produziram efeitos identificáveis contra a campanha de Lula ou contra conteúdos críticos a Flávio Bolsonaro. Outros dois casos envolveram problemas que atingiram os dois lados.

Os pesquisadores, contudo, não encontraram elementos suficientes para afirmar que os episódios decorreram de uma interferência deliberada.

Entre os casos analisados estão a remoção temporária do perfil Revelando Brasil e diferenças nas respostas da inteligência artificial da Meta a solicitações envolvendo os candidatos.

Meta havia prometido reduzir erros

O Comitê de Supervisão também lembrou que a Meta assumiu, em 2025, o compromisso de ampliar a liberdade de expressão e reduzir erros relacionados às eleições e ao debate político.

Para o conselho, os episódios recentes mostram que a empresa ainda precisa avançar para cumprir esse compromisso.

A cobrança ocorre em um momento especialmente sensível no Brasil, com o segundo turno da eleição presidencial marcado para domingo (25).

Nesse cenário, a transparência dos sistemas de moderação ganha importância para permitir que candidatos, eleitores e autoridades compreendam como as plataformas digitais aplicam suas regras durante a disputa.

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