Crianças entre a rua e as telas: violência e riscos digitais desafiam proteção à infância no Rio

Restrição à circulação provocada pela violência e aumento do uso de celulares colocam famílias diante de novos desafios para garantir lazer, convivência e segurança

A violência urbana e a expansão do uso de celulares e aplicativos estão mudando a forma como crianças e adolescentes brincam, convivem e se relacionam. No Rio de Janeiro, a falta de espaços considerados seguros para o lazer faz com que parte das famílias recorra às atividades dentro de casa e à interação pela internet. Ao mesmo tempo, o ambiente digital apresenta riscos que exigem acompanhamento e orientação dos responsáveis.

No Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, iniciativas discutidas na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) colocam em debate a necessidade de proteger crianças e adolescentes tanto nas ruas quanto no ambiente virtual.

Violência também afeta a rotina das crianças

Estudo divulgado pelo UNICEF, Instituto Fogo Cruzado e GENI/UFF em 2026 mostra a dimensão dos impactos da violência sobre a circulação de crianças e adolescentes. Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, 188.694 estudantes da rede municipal do Rio tiveram seus trajetos entre casa e escola afetados pela violência armada.

O Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz, também aponta que a precarização de espaços de lazer e a violência urbana podem modificar os hábitos das famílias, favorecendo atividades realizadas dentro de casa.

Nesse cenário, brincar na rua ou encontrar os amigos pode se tornar uma decisão que envolve preocupações adicionais para os responsáveis.

Celular vira espaço de convivência

Quando sair de casa não é uma opção considerada segura, jogos online, redes sociais e aplicativos de conversa podem acabar assumindo parte do papel ocupado anteriormente pela convivência presencial.

É o que ocorre com famílias que procuram alternativas para manter as crianças próximas dos amigos sem expô-las aos riscos existentes em determinados territórios.

Mas a mudança também cria uma nova preocupação: como acompanhar com quem os filhos conversam e quais conteúdos acessam?

Um levantamento apresentado no relatório Redes de Proteção, publicado pelo ITS Rio em julho de 2026, ouviu 327 responsáveis. Entre eles, 60% classificaram como difícil ou muito difícil acompanhar a vida digital dos filhos.

A dificuldade aumenta à medida que crianças e adolescentes passam mais tempo conectados e utilizam diferentes plataformas, jogos e serviços de comunicação.

Os riscos também existem no ambiente digital

O problema não se limita ao excesso de tempo diante das telas. Uma pesquisa nacional divulgada em março de 2026 pelo UNICEF e parceiros estimou que 19% das crianças e adolescentes de 12 a 17 anos, aproximadamente 3 milhões de pessoas, sofreram algum tipo de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia nos 12 meses anteriores à entrevista.

O levantamento considerou situações como aliciamento, extorsão e compartilhamento de imagens, que podem envolver tanto interações exclusivamente digitais quanto situações que posteriormente chegam ao ambiente presencial.

Para a psicóloga de crianças e adolescentes Patrícia Baptista, a proteção precisa considerar também as oportunidades de convivência e brincadeira.

A orientação, segundo a especialista, não deve se limitar à redução do tempo de uso do celular. Crianças precisam ter alternativas seguras para brincar e conviver e, dentro da internet, devem saber que podem procurar um adulto de confiança quando alguma situação causar desconforto ou medo.

Projeto na Alerj propõe orientação para famílias

A discussão sobre segurança digital também chegou ao Legislativo fluminense.

O Projeto de Lei 8.086/26, apresentado em agosto, propõe capacitar famílias para utilizar ferramentas de proteção digital. Entre as medidas previstas estão orientações sobre filtros de conteúdo, restrições de aplicativos de acordo com a idade, privacidade e utilização de canais de denúncia.

A proposta ainda está em tramitação e, portanto, não representa uma política já em vigor.

Outra medida já aprovada pela Alerj é a Lei nº 11.153/2026, sancionada em abril, que instituiu uma política estadual de conscientização sobre o uso excessivo de celulares. A norma prevê campanhas educativas e incentivo à leitura e a atividades pedagógicas.

Como denunciar situações de violência

Casos suspeitos de violência contra crianças e adolescentes podem ser comunicados aos canais oficiais de proteção, incluindo o Disque 100, o Conselho Tutelar e a Polícia Civil.

A discussão sobre infância e tecnologia envolve, portanto, dois desafios que caminham lado a lado: criar condições para que crianças possam brincar e conviver com segurança fora das telas e, ao mesmo tempo, reduzir os riscos existentes no ambiente digital.

Mais do que simplesmente afastar crianças dos celulares, o desafio passa por oferecer alternativas de lazer, fortalecer a presença dos adultos e ensinar crianças e adolescentes a reconhecer situações de risco e buscar ajuda.

Fontes

Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj)

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